Uma vida essencialmente fora dos rótulos
Em Empoderamento | 16 de maio de 2018

Sai daquele consultório médico desolada com meu pai ao meu encalço sem saber o que fazer. Ele não falava porque na verdade não havia nada a ser dito à uma adolescente que acabara de ser humilhada por um endocrinologista por conta do excesso de peso, apesar da saúde ir bem – obrigada – de acordo com o calhamaço de exames.

Uma “Calma filha, nós vamos dar um jeito juntos” dito pelo meu pai foi o suficiente para desatar o nó da garganta que eu fingia não existir há 18 anos e me irromper em lágrimas.

Não consegui reprimir a dor que marcou minha alma durante todos aqueles anos enquanto fingia ignorar as piadinhas dos meus colegas do colégio, as recriminações e dicas de dieta dos parentes ou o fato de ser totalmente desinteressante para qualquer pessoa da minha idade pelo simples motivo de ser gorda.

Ao longo desses 18 anos, o medo da rejeição me acompanhou e guiou em todas as fases da minha vida. Na infância eu não gostava de brincar de pega-pega porque sempre ouvia “pega a gordinha. É mais fácil”, a primeira vez que troquei de colégio passei os primeiros meses isolada no intervalo pois preferia ficar sozinha a chamar atenção e correr o risco de virar o alvo de piadas da sala. Nas viagens e passeios da escola fazia o possível para ser invisível e quando isso não era possível me mostrava muito agradável com todos, afinal era uma estratégia – quase – infalível para que não notassem minha barriga maior que da maioria ali.

Na pré-adolescência meus pais acreditavam que eu era uma menina tranquila e caseira quando na verdade eu fugia de situações que me tiravam da minha zona de segurança e conforto. A primeira matinê foi digna de ser esquecida, afinal qualquer sinal de aproximação de um rapaz o sinal de alerta soava até porque, na minha cabeça: quem se interessaria genuinamente por uma menina gorda?

A tão aguardada viagem de formatura do Ensino Médio virou uma tortura quando lembrei que teríamos praia e piscina no roteiro e que o biquíni e roupas curtas eram peças indispensáveis para aquele destino. Na faculdade evitava efusivamente roupas que destacassem meu excesso de peso e passar perto das rodas dos alunos de outros cursos para não chamar atenção.

Naquele dia resolvi não voltar para o trabalho e fui para casa, porque dessa vez eu estava – finalmente – no fundo do poço e a desesperança me tomava. Eu me sentia um fracasso, porque todas as vezes que passava por uma situação embaraçosa em relação ao meu peso eu jurava a mim mesma que jamais permitiria que meu corpo fosse um obstáculo.

Enquanto eu buscava o corpo ideal e aceitável nas dietas milagrosas, nas capsulas de sibutramina e ansiolíticos eu me esforçava cada vez mais para atingir níveis de excelência em tudo que fazia, afinal eu jamais seria um corpinho bonito, então buscava admiração e realização em outros meios.

As custas de muito esforço, fome e sofrimento, os ponteiros da balança caíram bruscamente, cheguei no aceitável manequim 42, ouvi incontáveis elogios rasgados das pessoas que me rodeavam, mas surpreendemente – ou não – eu não me sentia feliz tampouco realizada. O espelho ainda não refletia a imagem que eu tanto ansiava.

Não satisfeita, fui buscar na minha escolha profissional um caminho para felicidade e realização pessoal. Me aproximei ainda mais do jornalismo e passei a entender melhor meus sentimentos quando os transformei em palavras. Descontentamentos, medos e desejos que nem eu mesma sabia que existiam transbordavam em meus textos.

Foi então que eu escancarei as portas para o autoconhecimento e a resiliência. Entendi que o que de fato buscava não era o manequim 42, o peso ideal ou me identificar com a modelo da capa de revista. O que eu queria era ter o direito de ser quem eu era na mais pura essência, sem medos, estratégias ou fingimentos.

O mais difícil no início é se convencer de que de fato você não precisa se encaixar em padrões para ser feliz, bem-sucedida ou para alcançar os próprios sonhos e objetivos. Lutar contra os próprios preconceitos, mexer nas feridas e reformular sua forma de viver e conviver com o mundo é desafiador, mas com prática vira rotineiro e muito comum.

Comecei a me enxergar de forma diferente, além dos rótulos e exigências sociais. O amor próprio chegou e aos poucos começou a fazer o efeito que nenhuma dieta ou capsula de emagrecimento milagroso me proporcionou.

Hoje, aos 26 anos, o padrão perdeu sentido. Tomei coragem e dia após dia me desprendo da armadura que impedia que eu me enxergasse como alguém capaz e admirável. Por fim, descobri que quebrar padrões é meu novo hobby, que escrever meus próprios roteiros é muito mais desafiador, mas também prazeroso e que o amor próprio é uma luta diária.

As crises, os medos, os questionamentos sempre existirão, mas lá no fundo sempre saberei que ser diferente é o que faz de mim alguém especial.

*Imagem de destaque by Annie Spratt on Unsplash

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