Ok, vamos falar sobre como timidez e opressão andam juntas
Em Comportamento | 24 de set de 2018

“O que você acha de fazer terapia?”, perguntou meu pai enquanto lançava um olhar apreensivo para minha mãe, que também lhe devolvia aflição e ansiedade. Meses atrás, aquela proposta me soaria estranha, mas não naquela altura do campeonato, quando havíamos aprendido a conviver com a Síndrome do Pânico do meu pai. Sabia que não se tratava de uma proposta ruim, afinal aquele mesmo recurso havia salvado meu herói de suas crises de medo.

Depois de um aceite e um sorriso de minha parte, meus pais me explicaram aliviados que achavam que seria uma decisão incrível para que eu “me soltasse mais”, nas palavras deles.

Pessoalmente eu não via problema em passar a maioria dos intervalos do colégio sozinha, ter menos amigos que as crianças da minha idade, ser melhor amiga de uma única menina desde a pré-escola ou então evitar ao máximo a – terrível – experiência da primeira matinê.

O segredo que fui descobrindo durante minhas sessões de terapia é que, por baixo de toda aquela timidez excessiva que caracterizava a criança de 12 anos, estava a opressão. A vergonha de ser quem eu era – uma criança gorda – me causava medo e angústia, o que me motivava a maquiar toda aquela carga negativa com uma timidez inocente.

As respostas dos questionamentos que me eram feitos naquela salinha 4×4 todas as terças-feiras vieram em forma de pequenas grandes mudanças na forma com que eu me mostrava ao mundo. A vergonha de ser quem eu era seguiu intacta por muitos anos, mas o medo – ah, o medo – tornou-se questão de honra superá-lo.

Em alguns casos, a vergonha é uma espécie de recurso para proteger-se da realidade nua e crua. A timidez surge de uma relação inadequada e opressora com o mundo, parecido com o que aconteceria com alguém que andasse em corredores de gente com dedos e risadas sarcásticas apontados para si. Aquilo que poderia ser fonte de “força” começa ferir e oprimir.

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